
"Poema em 16 Atos"
(...canta o poema o imaginário, o não existente, o sensivelmente vivo que reside n'alma envolto em mistério ...participam do poema, durante todos os atos, personagens vindas do eterno desterro, onde estão condenadas ao nada. ...incumbem-se dos refrões cavaleiros imaginários que ora vestem-se de sonhos ora vestem-se de realidade. ...os instrumenstos, todos, são tocados por querubins surgidos não se sabe d'onde. ...trombetas douradas e flautas sagradas, forjadas no mundo das luzes, são os instrumentos utilizados. ...os atos podem ser poetados, cantados, falados, vividos em qualquer ordem. O ser que os poetou seguiu a ordem da razão, sempre mais segura e prática.)
- imenso silêncio. Não há movimento. Os personagens se aproximam -
Ato 1 Não existe nada
nem ninguém
só vida
só atração
só rejeição
Ato 2 Não existe nada
nem ninguém
só paixão
só amor
só querer
só estar
Ato 3 Não existe nada
nem ninguém
só tempo
só brisa leve
só êxtase
Pausa (neste momento há movimento leva, cor de luz, que aos poucos ocupa todo o recinto)
Ato 4 Não existe nada
nem ninguém
só negritude
só lugares
só diferenças
só visões
- Refrão (cavaleiros imaginários vestidos de sonhos falam - em tom alto, forte e ritmado - ao
som de trombetas douradas)
- Vida - Atração - Rejeição -
Ato 5 Não existe nada
nem ninguém
só entendimento
só razão: intelecção
Ato 6 Não existe nada
nem ninguém
só embeber-se
só envolver-se
Ato 7 Não existe nada
nem ninguém
só o olhar
só os Olhos
Ato 8 Não existe nada
nem ninguém
só a pele fina: suave - alva.
só o falar doce: amargo - duro - inebriante.
Pausa (o movimento leve cor de luz aos poucos começa a evaporar-se, perder-se no ar)
- Refrão (cavaleiros imaginários vestidos de sonhos falam - em tom alto, forte e ritmado - ao
som de trombetas douradas)
- Vida - Atração -
Ato 9 Não existe nada
nem ninguém
só sensualidade.
só ser precioso - frágil - inquebrantável.
Ato 10 Não existe nada
nem ninguém
só o ser pequeno - grande - imenso: delicado
Ato 11 Não existe nada
nem ninguém
só o cabelo nervoso em desalinho
Ato 12 Não existe nada
nem ninguém
só a vida que pulsa por entre as mãos que tremem.
Pausa (neste momento tudo para; há uma sensação do novo que deve surgir)
- Refrão (cavaleiros imaginários vestidos de sonhos, apressados despem-se; as trombetas douradas cessam de tocar. Do silêncio profundo cavaleiros imaginários - outros - surgem. Vestem elmos dourados e, ao som de flautas sagradas, entoam - vagarosamente - o último refrão.)
- Vida -
Ato 13 Não existe nada
nem ninguém
só o ser que ama
alegra-se
confunde-se
funde-se
espera?
espera-se
Ato 14 Não existe nada
nem ninguém
só vida
só paz
Ato 15 Não existe nada
nem ninguém
só a alegre paz do estar.
só o prazer do deixar-se invadir.
só o sentir.
só o ser feliz.
Pausa (...todos se retiram. A luz - evaporada do movimento cor de luz - apaga-se. Ao fundo, como surgido do nada, há um clarão, pequena chama que aos poucos tudo ilumina. Vê-se sombras inertes, disformes. Uma legião de cavaleiros imaginários vestidos ora de sonhos ora de realidade, caminham em direção às sombras. Querubins invadem o recinto, imiscuem-se por entre as sombras inertes e disformes. Cantam melodias silenciosas, ao som de flautas sagradas. Os cavaleiros imaginários vestidos ora de sonhos ora de realidade, atraídos pelo cântico silencioso atacam com mansidão e firmeza as sombras inertes e disformes... Acontece o último ato.)
- neste momento só permanece no recinto a imensidão do universo -
Ato 16 Não existe o nada
há, sim, alguém
que é procura
caminho
espera
sonho
ilusão
passagem...
(O clarão de luz surgido do nada torna-se mais intenso, cega a visão. Tudo escurece. Nada mais
se vê.)