sábado, 21 de junho de 2008


"Poema em 16 Atos"


(...canta o poema o imaginário, o não existente, o sensivelmente vivo que reside n'alma envolto em mistério ...participam do poema, durante todos os atos, personagens vindas do eterno desterro, onde estão condenadas ao nada. ...incumbem-se dos refrões cavaleiros imaginários que ora vestem-se de sonhos ora vestem-se de realidade. ...os instrumenstos, todos, são tocados por querubins surgidos não se sabe d'onde. ...trombetas douradas e flautas sagradas, forjadas no mundo das luzes, são os instrumentos utilizados. ...os atos podem ser poetados, cantados, falados, vividos em qualquer ordem. O ser que os poetou seguiu a ordem da razão, sempre mais segura e prática.)


- imenso silêncio. Não há movimento. Os personagens se aproximam -


Ato 1 Não existe nada

nem ninguém


só vida

só atração

só rejeição


Ato 2 Não existe nada

nem ninguém


só paixão

só amor

só querer

só estar


Ato 3 Não existe nada

nem ninguém


só tempo

só brisa leve

só êxtase


Pausa (neste momento há movimento leva, cor de luz, que aos poucos ocupa todo o recinto)


Ato 4 Não existe nada

nem ninguém


só negritude

só lugares

só diferenças

só visões


- Refrão (cavaleiros imaginários vestidos de sonhos falam - em tom alto, forte e ritmado - ao

som de trombetas douradas)


- Vida - Atração - Rejeição -


Ato 5 Não existe nada

nem ninguém


só entendimento

só razão: intelecção


Ato 6 Não existe nada

nem ninguém


só embeber-se

só envolver-se


Ato 7 Não existe nada

nem ninguém


só o olhar

só os Olhos


Ato 8 Não existe nada

nem ninguém


só a pele fina: suave - alva.

só o falar doce: amargo - duro - inebriante.


Pausa (o movimento leve cor de luz aos poucos começa a evaporar-se, perder-se no ar)


- Refrão (cavaleiros imaginários vestidos de sonhos falam - em tom alto, forte e ritmado - ao

som de trombetas douradas)


- Vida - Atração -


Ato 9 Não existe nada

nem ninguém


só sensualidade.

só ser precioso - frágil - inquebrantável.


Ato 10 Não existe nada

nem ninguém


só o ser pequeno - grande - imenso: delicado


Ato 11 Não existe nada

nem ninguém


só o cabelo nervoso em desalinho


Ato 12 Não existe nada

nem ninguém


só a vida que pulsa por entre as mãos que tremem.


Pausa (neste momento tudo para; há uma sensação do novo que deve surgir)


- Refrão (cavaleiros imaginários vestidos de sonhos, apressados despem-se; as trombetas douradas cessam de tocar. Do silêncio profundo cavaleiros imaginários - outros - surgem. Vestem elmos dourados e, ao som de flautas sagradas, entoam - vagarosamente - o último refrão.)


- Vida -


Ato 13 Não existe nada

nem ninguém


só o ser que ama

alegra-se

confunde-se

funde-se

espera?

espera-se


Ato 14 Não existe nada

nem ninguém


só vida

só paz


Ato 15 Não existe nada

nem ninguém


só a alegre paz do estar.

só o prazer do deixar-se invadir.

só o sentir.

só o ser feliz.


Pausa (...todos se retiram. A luz - evaporada do movimento cor de luz - apaga-se. Ao fundo, como surgido do nada, há um clarão, pequena chama que aos poucos tudo ilumina. Vê-se sombras inertes, disformes. Uma legião de cavaleiros imaginários vestidos ora de sonhos ora de realidade, caminham em direção às sombras. Querubins invadem o recinto, imiscuem-se por entre as sombras inertes e disformes. Cantam melodias silenciosas, ao som de flautas sagradas. Os cavaleiros imaginários vestidos ora de sonhos ora de realidade, atraídos pelo cântico silencioso atacam com mansidão e firmeza as sombras inertes e disformes... Acontece o último ato.)


- neste momento só permanece no recinto a imensidão do universo -


Ato 16 Não existe o nada

há, sim, alguém


que é procura

caminho

espera

sonho

ilusão

passagem...


(O clarão de luz surgido do nada torna-se mais intenso, cega a visão. Tudo escurece. Nada mais
se vê.)

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