
(Caras lembranças de leitura)
Viver em Canudos nos livros de Francisco Marins; Viver a introspecção do garoto de meu pé de laranja lima; Ser um dos rapazes esquisitos, exóticos, idiossincráticos da rua descalça; Descobrir o que as letras gravaram em latim nos livros de missa; Perceber que era possível rezar lendo; Viajar nas parábolas bíblicas; Sentir o cheiro e o gosto do doce de coco preparado no tronco do ipê. Ter raiva de Capitu, pena de Bentinho. Experimentar o Cortiço; a sujeira, a gentarada, a exploração, o preconceito, a ambição, a solidariedade. Saber que sempre há uma pedra no caminho, mas que sempre é possível chutá-la pois, de repente, toda filosofia nos foge pela janela dos fundos e nos resta apenas comer chocolates. Sentir e ouvir a mãe contar a história do vestido e, de repente, o pai chegar e a vida continuar normal, como se não tivesse sido interrompida. Ter a certeza de que ninguém é santo, nem os que pregam santidade e constatar isto nos horrores de padre Amaro. Ler. Me faz tudo isto. Há em mim um pouco de bondade e esquicitice dos rapazes da rua descalça, um pouco de santo e um pouco de louco. Então fico aqui, atrás das grades, preso às minhas esquisitices, embriagado e tonto dos prazeres que a leitura me tem proporcionado. Acabo por agora.
= "Palavras em encontros poéticos" = aulas da Profa. Dra. Eulina Pacheco Lutfi, 1997

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