sábado, 12 de julho de 2008




Nossas várias metades:
somos seres divididos...


O homem contemporâneo é dividido, mutilado, incompleto, hostil a si mesmo. Marx e Freud chamam a esta mutilação e hostilidade de alienação e repressão, respectivamente (Ítalo Calvino). A alienação mutila e hostiliza porque rouba o usufruto do trabalho. Emprestamos criatividade, força física, intelectual (nossa existência) e o trabalho não nos pertence, pertence a outro que não sabemos quem é. Estranho ao seu trabalho e ao produto dele, o homem torna-se escravo da produção, essa o domina. No processo de produção capitalista, somos apenas consumidor, apenas uma boca que come, um corpo que se exibi - sem cabeça, pois não podemos pensar. A repressão, fruto da censura imposta pelo superego nos leva a enterrar parte de nós no subconsciente; nos faz viver de metades compostas de atos falhos, racionalizações e projeções. Não nos assumimos por inteiro, somos somente emoções boas e positivas (Renato Janine Ribeiro), só parte de nós vive: escondendo-se das outras metades.
Alienação e repressão, filhas diletas do "superego social" dessa nossa civilização ocidental de pensamento único: modo de produção capitalista global e monopolista. Atinge, também, o homem coletivo que está mutilado, dividido, uma vez que a ideologia capitalista de pensamento único gera a propriedade privada (uns têm outros não tem; uns moram outros não moram; uns comem outros não comem), gera um mundo cindido (um rico e dono das tecnologias; outro pobre e fornecedor compulsório de biodiversidade), gera saber e qualidade de vida para alguns e analfabetismo e morte-em-vida para outros. Tal pensamento único mutila o homem coletivo porque produz os vários fundamentalismos: econômico, cultural, político, ideológico, religioso, estético... Criador de repressão, o fundamentalismo nos faz viver na dicotomia bem/mal, certo/errado, bonito/feio, pode/não pode, onde o bem supremo reside nas grandes potências econômicas/militares e o mal no povo pobre, islâmico, negro, indígena, mestiço.
Alienação e repressão de pensamento único de uma civilização ocidental de modo de produção capitalista global e monopolista, que nos impõem como únicos valores o acúmulo, o consumo e a ascensão social. Significando conquista de poder, autoridade e domínio; valores que dão origem ao ser humano "ideal": "...beleza física, corpos escupidos em academias, saúde em termos de juventude, dinheiro nas provas concretas de sua posse (carros importados, telefone celular acionado nas ruas e supermercados, grifes, mansões com quartos às dúzias), sucesso profissional, glória na mídia etc; choram-se os minutos da glória que não vêm ou já foram; escancaram-se os resultados positivos, ignoram-se os meios." (Yves de La Taille). Eis o homem contemporâneo mutilado, partido ao meio: pessoal e socialmente; mais preocupado "...em acumular bens e sensações inúteis. É a tal 'ética do desespero', pautada no tripé sexo/droga/Credicard..." (Julio Groppa Aquino/Rosely Sayão).

Ítalo Calvino, O Visconde partido ao meio - Cia das Letras
Renato Janine Ribeiro, Sinta raiva - Folha de São Paulo, 02.05.2002
Yves de La Taille, A indisciplina e o sentimento de vergonha, in, Indisciplina na escola... Summus
Julio Groppa Aquino e Rosely Sayão, Em defesa da escola - Papirus

Um comentário:

Aruanda disse...

A composição das fotos ficou muito boa...